Entendendo o ciclo da violência doméstica

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Fonte: Getty Images

 

“Um dia ali estará a moça cujo nome não mais significará apenas uma oposição ao macho nem suscitará a ideia de complemento e de limite, mas sim a de vida, de existência: a mulher-ser humano.”

Rainer Maria Rilke

Para quem está de fora de um relacionamento abusivo, muitas vezes paira a dúvida sobre as razões pelas quais a mulher continua a se relacionar com o homem que a agride. Esse estranhamento leva até mesmo ao absurdo de se pensar que a mulher não sai daquela relação porque supostamente “gosta de apanhar”. Essa impressão ocorre porque as mulheres em situação de violência, muitas vezes, não denunciam seus agressores. Mas pensar assim implica não reconhecer as dificuldades envolvidas na denúncia e as complexidades de uma relação – medo, vergonha, não ter para onde ir, dependência econômica, filhos em comum, etc. A mulher agredida hesita em buscar a punição do responsável pela violência, a quem ama ou – ao menos – a quem um dia amou.

Numa sociedade em que as mulheres são ensinadas desde crianças a serem tolerantes, obedientes, compreensivas e dóceis, não é difícil que muitas delas adentrem, devagar e sem perceber, em relacionamentos violentos. Isso porque a violência não surge de maneira óbvia: ela vem silenciosa, dissimulada, aproveitando-se da vulnerabilidade típica do início do enamoramento para se firmar. Contudo, desde logo se mostram alguns indicativos: apego rápido, ciúme excessivo, controle do comportamento e dos meios de comunicação, isolamento da família e dos amigos, culpabilização da mulher e deslegitimação dos abusos.

O Ciclo da Violência Doméstica apresenta, em geral, três fases. Primeiramente, o aumento da tensão, na qual os atritos acumulados no dia-a-dia, as reclamações e reprimendas se transformam em ameaças, deixando a mulher com a sensação de perigo iminente. Essa fase começa com violência psicológica menos visível, um tanto subjetiva. Em seguida, a violência psicológica pode dar lugar à violência física, passando, assim, para a segunda fase, a do ataque violento: o homem maltrata física e psicologicamente a companheira e essas agressões tendem a escalar na sua frequência e intensidade. Por fim, tem-se a fase da chamada lua-de-mel, na qual, após a agressão, o homem envolve a parceira com carinhos e atenções, pedindo desculpas pelo comportamento e prometendo mudar. Tudo fica bem, até a próxima ameaça, quando o ciclo se fecha e se repete.

A mulher tem bastante dificuldade de reconhecer que está passando por uma situação de violência. Ela consegue facilmente encontrar explicações e justificativas para o comportamento do parceiro: “é uma fase que vai passar”, “ele anda muito estressado”, “tem trabalhado muito” etc. Para evitar problemas, aceita as exigências que ele faz, tornando-se ainda mais dócil e submissa. Afasta-se de todos e fica constantemente assustada, pois não sabe quando virá a próxima explosão.

Além disso, o agressor busca sempre atribuir a culpa à mulher, justificando seu descontrole na conduta dela. Alega que foi a parceira “quem começou”, atacando sua autoestima e segurança. Ela acaba reconhecendo que parte da culpa (quando não a culpa inteira) é sua e, por conta disso, o perdoa. A mulher não percebe a manipulação, e para evitar nova agressão, recua, abrindo mais espaço para violência. O medo da solidão a faz dependente e ela se torna prisioneira da vontade do homem.

A violência doméstica não oferece rota de fuga. As mulheres que se encontram nessa situação precisam de um esforço imenso e de uma ruptura psicológica significativa para que possam construir a sua saída de emergência. Uma mulher não se mantém num relacionamento desses “porque gosta de apanhar”: ela se vê completamente sozinha e vulnerável, tendo apenas seu próprio agressor como testemunha. Compreender como esse ciclo opera e oferecer solidariedade às mulheres que nele se encontram é o primeiro passo para encorajá-las a quebrar esse processo e buscar ajuda.

2 comentários em “Entendendo o ciclo da violência doméstica

  • Parece que este artigo é a minha história,acho que estou no estágio um,porque é assim que me sinto,há 12 anos vivo com um homem,que não me deixa ter amizade nem com amigas muito menos homens,só fica bem em família se for a dele,porque da minha ele não gosta,agora começou a me xingar de porca,preguiçosa ,não posso ir a um cabelereiro que ele diz que ao invés de bater perna eu devo deixar todas as roupas passadas,casa limpa ,comida feita na hora para ele comer.resolvi procurar a delegacia da mulher,abri o processo que já faz mais de 3 meses até agora nada,ele só piorou depois disso agora fica dizendo pra mim se não está bom eu que vá embora porque a cãs o carro é tudo dele,procurei advogados gratuitos também a mais de 3 meses até agora nada,mais uma vez ele piorou o que era só de vez enguando agora é todo final de semana no último agrediu meu filho de 14 anos ,fui obrigada a ir dormir na casa da minha mãe ,fui na delegacia pedir a medida protetiva há 4 dias estou esperando respostas até agora nada.agora ele está calmo,mesmo eu não dormindo com ele,o que vou fazer não vou mais sair de casa ,vou fazer do jeito que ele disse porque não vejo outra saída ,não tenho apoio

    • Nossa, Sonia. Sentimos muito que você esteja passando por tudo isso, e que suas tentativas de procurar a justiça tenham sido frustrantes. Mas não desista, existe uma lei que te ampara, e talvez o que você precise é de uma assessoria jurídica mais atuante para acompanhar o caso. Também sugerimos que procure um centro de referência da mulher próximo à sua residência, pois lá eles fornecem um acompanhamento multidisciplinar para mulheres em situação como a sua. Abraços

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