Paternidade ativa: o que as empresas têm a ver com isso?

Com a aproximação do dia dos pais, é comum que empresas se preocupem em realizar ações a fim de comemorar a data. Além de prestigiar os trabalhadores que possuem filhos, cada vez mais as empresas devem se preocupar com a promoção da paternidade ativa. E neste texto explicamos por que esse assunto deve estar em pauta, e o que as empresas podem fazer para contribuir com essa mudança social.

Vivemos em uma sociedade que ainda divide as funções sociais entre homens e mulheres. Enquanto aqueles assumiram tradicionalmente atividades produtivas, com ocupações de forte valor social, as mulheres foram historicamente reduzidas à esfera reprodutiva, em atividades ligadas à família e aos afazeres domésticos. Assim, enquanto os homens controlaram a maior parte dos setores sociais, desde a indústria até a política, as mulheres, com condições econômicas e de direitos reduzidas, assumiram o papel de mães e esposas. Porém, por conta dessa divisão sexual de trabalho que marcou a nossa história, a função de cuidado sempre foi menos valorizada e os homens foram desresponsabilizados de cumpri-la.

Com a maior presença da mulher no mercado de trabalho, essa realidade vem sendo denunciada. Apesar de agora também participarem da força produtiva, as mulheres ainda carregam majoritariamente sozinhas o peso das atividades domésticas e reprodutivas, exercendo uma tripla jornada de trabalho.

Entretanto, essa lógica segregadora também prejudica os homens. Para caber no papel social esperado, os homens são muitas vezes forçados a abrir mão de partes de sua identidade, em especial daquilo que os aproximam do que é tradicionalmente feminino. Por conta disso, ainda há tabus em relação ao exercício de uma paternidade plena e ativa, o que prejudica os homens e seu relacionamento com seus filhos.

Claro que há muitos homens que não se sentem responsáveis por suas crias. Os tribunais estão cheios de processos em que filhos cobram reconhecimento, pensão alimentícia e até mesmo indenização por abandono afetivo por conta da ausência de seus genitores. Mas cada vez mais vemos homens dispostos a participar da criação de seus filhos de uma maneira mais próxima, dispondo de presença, contato e assumindo responsabilidades.

Uma divisão mais igualitária dos papeis sociais, além de ser o justo, trará incontáveis benefícios para nossa sociedade. E o que empresas podem fazer para contribuir para essa transformação social?

Destacamos aqui algumas iniciativas simples que podem ser adotadas:

1) Licença paternidade estendida.

Atualmente o Brasil apenas garante 5 dias de licença paternidade. Essa é uma realidade que apenas reforça a ideia de que os cuidados da cria são exclusivamente femininos, e que se mostra bastante atrasada quando comparado ao resto do mundo, em que há uma tentativa cada vez maior de promover licenças mais amplas para os pais.

Esses primeiros 5 dias costumam ser aqueles em que a mulher e a criança estão no hospital, de modo que o pai sequer tem a chance de poder contribuir para a organização doméstica para o recém chegado bebê ou até mesmo de conseguir construir um vínculo afetivo mais profundo com o filho, antes de ter de retornar ao trabalho.

Há alguns anos, contudo, temos o Programa Empresa Cidadã, que estende a licença paternidade para 20 dias, garantindo ao genitor seu salário integral durante o período. Em contrapartida, a empresa recebe dedução fiscal em seu Imposto de Renda. As sociedades que aderirem ao programa devem também comprovar a participação em programa ou atividade de orientação sobre paternidade responsável pelo empregado

Por enquanto, esta é a única política pública de fato voltada para essa realidade. No entanto, as empresas não precisam se restringir a ela, podendo seguir o exemplo de outras companhias que garantem benefícios ainda maiores, sabendo que isso contribui para o bem estar de seus colaboradores. Lembremos que trabalhadores felizes produzem melhor.

É o caso, por exemplo, da Natura, que garante licença paternidade de 40 dias ou da Marsh, que oferece o benefício por 35 dias.

2) Mudança de cultura institucional; treinamentos.

É claro que apenas fornecer o benefício não é o suficiente para modificar essa injusta realidade, que faz com que muitos funcionários não queiram usufruir totalmente o benefício por acreditarem que podem sofrer algum tipo de represália. Afinal, se o “normal” é que homens não participem deste primeiro momento, querer ser mais presente não poderia prejudicar a imagem que ele tem na empresa? Ou até mesmo prejudicar sua carreira?

Dessa forma, é necessário que as lideranças invistam em mudanças institucionais. Para isso, o papel da equipe de RH é fundamental. O Programa Empresa Cidadã já cantou a bola e mostrou o quão importante é que homens participem de cursos sobre paternidade e cuidado, para que possam desconstruir preconceitos e se sentir mais confortáveis nesse seu novo papel. Os demais colaboradores também se beneficiariam ao entrar em contato com esse tipo de informação, para que os cuidados não continuem a ser vistos como tarefa feminina e os homens sejam reduzidos ao trabalho produtivo.

Um exemplo de prática empresarial nesse sentido é o Grupo de Gestantes, da Boticário. Apesar do que o nome pode sugerir, este é um grupo composto não apenas por trabalhadoras gestantes e puérperas, para que possam entrar em contato com informações relevantes, se conectar com outras mulheres que estejam em sua situação e criem redes de apoio. Os trabalhadores homens que estejam acompanhando esse período de gestação e de cuidados com bebês pequenos também participam das rodas de conversa, podendo compartilhar experiências, tirar dúvidas e terem uma vivência – na medida do possível – mais tranquila.

Outra iniciativa de destaque foi a Roda de Conversas sobre Paternidade Ativa, promovida pela Cabify, em que os colaboradores puderam comparecer, com ou sem seus filhos pequenos, para conversar sobre paternidade, seus papeis e o que era esperado deles.

Nossa sociedade não costuma abrir espaço para que os homens discutam masculinidades. Ao contrário: há uma grande pressão para que os homens continuem mantendo suas tradicionais posições tidas como “masculinas”, que envolvem o afastamento de qualquer esfera emocional e afetiva, o que obviamente gera impactos negativos na formação desses indivíduos.

As empresas ocupam uma posição de grande privilégio se quiserem participar dessa transformação social, uma vez que costuma ser um dos locais em que essas pessoas mais passam o seu tempo. Poder proporcionar esse tipo de diálogo e gerar práticas empresariais que promovam maior equidade de gênero é tomar a dianteira e assumir um papel de responsabilidade social.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *